quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Portugal, país (também) de emigração

Contrariando uma ideia comum, Portugal continua a ser, hoje, um país de emigração, tanto, ou mais, quanto de imigração.

1. Os dois fluxos não coexistem apenas, reforçam-se mutuamente. Com a entrada de Portugal na (hoje) UE, aumentaram as migrações de portugueses para o restante espaço europeu, incluindo a Suíça, tanto em volume como em diversidade de pontos de destino (entre os quais se encontram agora países como o Reino Unido, a Bélgica ou a Holanda, para falar apenas dos mais significativos). Com esta saída crescente de nacionais acelerou-se uma imigração de substituição, de início oriunda dos PALOP, depois alargada ao Brasil e a alguns países do Leste (Ucrânia, Roménia, Moldava, entre outros). Substituição impulsionada pelo crescimento do investimento em infra-estruturas possibilitado pelos fundos europeus, numa primeira fase, a que se associa, numa segunda fase, o crescimento do turismo e da distribuição.
E assim Portugal retomou aceleradamente o seu estatuto de país de partida ao mesmo tempo que se tornava país de entrada.

2. A retoma da emigração é testemunhada pelo peso das remessas dos emigrantes que os portugueses no estrangeiro enviam para Portugal, as quais são mais de cinco vezes superiores às remessas que os imigrantes residentes no país enviam para fora. As origens e destinos dessas remessas estão muito concentrados.
No período 2002-2004, mais de metade das remessas recebidas em Portugal vieram da França (36%) e da Suíça (22%); mais de metade das remessas enviadas para o exterior, por estrangeiros residentes em Portugal, tiveram, também, apenas dois destinos: Brasil (33%) e Ucrânia (21%). Os grandes ausentes deste segundo “ranking” são os PALOP, embora quatro deles tenham um saldo negativo com Portugal, isto é, sendo maiores as remessas que recebem do que as que enviam (quatro, só, porque Angola tem um saldo positivo). Trata-se sempre, porém, de valores muito baixos, o que se explica pelo carácter mais permanente da imigração africana, já perfeitamente estabilizado.
É pois entre os imigrantes africanos e os seus descendentes que tem um impacto mais negativo o prolongamento da situação de estrangeiro. No campo financeiro, o abandono das origens não podia ser mais claro.

3. Os gráficos que a seguir se apresentam sobre as remessas de emigrantes e de imigrantes foram feitos com base nos dados do novo serviço Estatísticas Online do Banco de Portugal. Como indicador, usou-se sempre o valor médio das transferências registadas entre 2002 e 2004 (inclusive).



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Figura 1. Remessas de emigrantes e imigrantes em Portugal: entradas, saídas e saldo (valores médios 2002-2004, em milhares de euros)
Fonte: Banco de Portugal, Estatísticas Online (14/02/2006).




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Figura 2. Remessas de emigrantes e imigrantes em Portugal: entradas e saídas por orgem/destino (valores médios 2002-2004, em percentagem)
Fonte: Banco de Portugal, Estatísticas Online (14/02/2006).




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Figura 3. Remessas de emigrantes enviadas para Portugal: 10 principais países de origem (valores médios 2002-2004, em milhares de euros)
Fonte: Banco de Portugal, Estatísticas Online (14/02/2006).




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Figura 4. Remessas de imigrantes enviadas de Portugal: 10 principais países de destino (valores médios 2002-2004, em milhares de euros)
Nota: é positivo (para Portugal) o saldo entre remessas entradas e remessas saídas nos casos assinalados com (+).
Fonte: Banco de Portugal, Estatísticas Online (14/02/2006).